10.1.10

Indiferença?






Domingo de manhã, modificando as configurações do blog, e minha esposa me chama pra escutar esse texto que agora posto.
É um fragmento da tese de doutorado de Ana Paula Figueiredo Lousada, intitulada: "Crônicas de um Trabalho Docente: A Invenção como um Imanente à Vida". Ela cita Resende, num texto publicado pela Folha de São Paulo em 1992.
Toda vez que pensamos num trabalho, tentamos exercitar a mudança do foco, o olhar diferente, ver o que não prestamos atenção cotidianamente. E achei que esse texto tem tudo a ver com a nossa proposta.
Lá Vai:
"Se eu morrer, morre comigo certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença ."
REZENDE, O. L; O monstro da indiferença, Folha de S. Paulo, São Paulo, 23/fev/1992.



Zak Moreira

2 comentários:

Daniely Clarisa disse...

Super foda esse texto em Zak...

Kadydja Albuquerque disse...

Muito bom esse texto. Primeira vez no blog de vocês. Parabéns por esse projeto maravilhoso. Contem sempre com minha admiração, e me chamem pra fazer parte! ;-) Beijos!

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