27.1.10

Trotamundos no Circo

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E o circo...

...que represento é a metáfora da minha própria trajetória nessa vida...

É esse o espírito do artista que incorporei: o mambembe em sua essência.

Aquele único ser capaz de desprender-se das referências e

Optar por viver no não pertencimento...”

Patrícia Polayne

Quase por acaso...

Assim surgiu o segundo movimento do Trotamundos: registrar o lançamento do cd o “Circo Singular”, da cantora sergipana Patrícia Polayne.

Ainda vivíamos o processo pós-ressaca/euforia com o fim do Projeto “Quem Faz a Foto?” e início da exposição na Sociedade Semear. Ainda levantávamos as impressões sobre o resultado do projeto, dávamos entrevistas, enfim, mantínhamos a chama acesa...

Marcelinho participava nesse momento de um curso ministrado pelo MinC (Ministério da Cultura) e oferecido pela Secretaria de Estado da Cultura. Em um ‘coffee break’ do curso, soube por Elma Santos, produtora de Polayne na época, da articulação para o lançamento do seu primeiro cd. De imediato, veio à tona a vontade de registrar esse show, segundo a ótica do Trotamundos, saindo do formato simples e usual da fotografia e com o compromisso de apresentar um produto final que pudesse contar essa história de maneira fluida e completa... Começo, meio e fim...

A produtora executiva de Polayne, Melissa Warwick, era a responsável pela parte referente ao registro audiovisual do show. Em princípio, Melissa hesitou. Depois, conhecendo o coletivo, explicando a nossa ideia sobre o registro, a pluralidade de olhares e infinitas possibilidades, incorporou o Trotamundos ao evento.

A adversidade me empurrou pro circo e ele me acolheu.”

Patrícia Polayne

A princípio, o show seria realizado no Parque da Sementeira, mas no último instante o local foi negado, passando para o Circo Estoril... O elemento cultural perfeito! Cores, texturas, cheiros, sons... Tudo estava lá!

O circo estava montado... No entanto, trapezistas, equilibristas, palhaços, mágicos e o incrível “Globo da Morte” deram lugar ao baixo, guitarra, violões, bateria e percussão... A magia do picadeiro tinha outro tom: A música de Patrícia Polayne!

O nosso objetivo era dar uma leitura coletiva do show, fazer uma cobertura fotográfica diferente, um registro hegemônico do espetáculo. Uma imagem pode impressionar e até mesmo comover, mas estávamos à procura de romper essa barreira... Queríamos contar a história por trás do “Circo Singular”, mostrar o que só nós vivemos!

Chegamos ao Estoril logo pela manhã, registrando tudo que estava à nossa volta. Os elementos circenses se misturando à parafernália ‘high tech’ de áudio e vídeo deram um tempero a mais. Nesse primeiro momento, fotografamos texturas, cores, elementos cênicos e musicais... Seguimos pela tarde com a passagem de som, entrando pela noite, registrando tudo antes mesmo da abertura dos portões para o público. Os bastidores, o aquecimento, maquiagem, alongamento, nada passou desapercebido...

"Oh misterioso rio

Fundo caudaloso feito uma mulher

E a poesia (vai me arrastar até o mar)

E a navegação (vai me arrastar)

O sonho que sonhei é outro (vai me arrastar até o mar)

A vida que criei é minha (vai me arrastar)..."

Patrícia Polayne

Um bom público compareceu ao circo e mesmo tendo que esperar por mais de uma hora e meia para o início do espetáculo num calor infernal, recebeu Polayne de forma calorosa.

Acolhida por um cenário naturalmente maravilhoso e com um belíssimo figurino assinado por Altair Santo, Patrícia Polayne entrou no picadeiro do ‘Estoril’ e desfilou um repertório coeso e equilibrado, concentrado em seu primeiro cd. Uma atmosfera sensível, mágica e musicalmente precisa tomava conta do picadeiro, criando vários momentos emocionantes durante a noite.

O registro era fiel, música após música, um frenesi de cliques e olhares dava fluidez à narrativa. A mistura, a busca do entrosamento e da coexistência, definitivamente, mostrou nossa força: o Trotamundos passava pela sua primeira prova de fogo e mostrava o poder de ser um coletivo!

Sem dúvida um show inesquecível, um marco para a música sergipana, cantada em verso e prosa por uma das maiores artistas dos nossos dias e registrada por nossas lentes!




10.1.10

Indiferença?






Domingo de manhã, modificando as configurações do blog, e minha esposa me chama pra escutar esse texto que agora posto.
É um fragmento da tese de doutorado de Ana Paula Figueiredo Lousada, intitulada: "Crônicas de um Trabalho Docente: A Invenção como um Imanente à Vida". Ela cita Resende, num texto publicado pela Folha de São Paulo em 1992.
Toda vez que pensamos num trabalho, tentamos exercitar a mudança do foco, o olhar diferente, ver o que não prestamos atenção cotidianamente. E achei que esse texto tem tudo a ver com a nossa proposta.
Lá Vai:
"Se eu morrer, morre comigo certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença ."
REZENDE, O. L; O monstro da indiferença, Folha de S. Paulo, São Paulo, 23/fev/1992.



Zak Moreira